Governador Interino do Rio de Janeiro, Ricardo Couto afasta aliados de Cláudio Castro e promove mudanças no alto escalão.
As mudanças ganharam intensidade nos últimos dias
Há cerca de 20 dias à frente do Governo do Rio, o presidente do Tribunal de Justiça do estado, desembargador Ricardo Couto, iniciou uma ampla e rápida reestruturação no Palácio Guanabara. O movimento, na prática, desmonta o núcleo político herdado do ex-governador Cláudio Castro (PL) e busca estabelecer uma nova base de poder em meio à atual crise institucional.
As mudanças ganharam intensidade nos últimos dias. Na noite desta terça-feira, Couto publicou um decreto determinando a realização de uma auditoria abrangente em todas as secretarias e órgãos da administração direta e indireta, incluindo empresas estatais.
A análise terá prazo rigoroso. Os titulares das pastas deverão, em até 15 dias úteis, enviar à Casa Civil e à Controladoria-Geral do Estado (CGE) relatórios detalhados sobre projetos executados e contratos firmados acima de R$ 1 milhão ao longo dos últimos 12 meses, além de previsões de despesas. Também será necessário informar o número de servidores, cargos comissionados e trabalhadores terceirizados.
A CGE ficará responsável por examinar os dados e terá 45 dias para avaliar a legalidade das contratações diretas, seja por dispensa ou inexigibilidade de licitação. Caso sejam identificadas irregularidades ou situações que possam causar prejuízo aos cofres públicos, o fato deverá ser comunicado imediatamente ao governador em exercício para a adoção de medidas urgentes.
DÉFICIT BILIONÁRIO E CONTROLE DE GASTOS
Ao justificar a iniciativa, Couto destacou a necessidade de ajustar despesas e reduzir o déficit estadual, estimado em mais de R$ 18 bilhões no orçamento deste ano. O decreto também proíbe a abertura de novas licitações ou o início de contratos sem a comprovação prévia de dotação orçamentária suficiente para garantir sua execução.
A medida foi motivada pela identificação de um volume elevado de licitações recentes, o que levou a nova gestão a adotar mecanismos mais rígidos de controle.
TROCAS NO PRIMEIRO ESCALÃO
Paralelamente à auditoria, Couto avançou nas mudanças no alto escalão. Em edição extra do Diário Oficial, foi nomeado o procurador Flávio Willeman para a Casa Civil. O então titular da pasta, Marco Antônio Simões, foi deslocado para a Chefia de Gabinete, substituindo Rodrigo Abel, aliado próximo de Cláudio Castro.
Nos bastidores, a avaliação é de que Couto passou a exercer com mais intensidade sua autoridade sobre cargos estratégicos, até então influenciados pelo grupo do ex-governador. Novas mudanças são analisadas em áreas como Planejamento, Fazenda e Procuradoria-Geral do Estado.
CEDAE E DISPUTAS INTERNAS
A Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) também deve passar por alterações. O atual presidente, Aguinaldo Ballon, ligado ao grupo de Castro, pode ser substituído, dependendo da aprovação em assembleia de acionistas. O nome mais cotado para assumir o posto é o procurador Rafael Rolim.
A estatal enfrenta um cenário de disputas internas entre diferentes grupos políticos, com diretorias ocupadas por indicações diversas, o que tem intensificado conflitos recentes.
DESMONTE DO GRUPO ANTERIOR
A exoneração de Rodrigo Abel simboliza o enfraquecimento definitivo do núcleo político ligado ao ex-governador. Considerado um dos principais articuladores da gestão anterior, ele era próximo de figuras como Nicola Miccione e Rodrigo Bacellar.
O esvaziamento desse grupo já vinha ocorrendo desde o fim de março, quando Miccione deixou a Casa Civil no mesmo dia em que Couto assumiu o governo. Desde então, também foram afastados policiais que atuavam no Palácio Guanabara com forte influência nas decisões administrativas.
APOIO DO STF E CENÁRIO POLÍTICO
Couto ganhou respaldo político após a visita do ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que declarou apoio à condução do estado durante o período de transição.
Além disso, o STF decidiu que o futuro presidente da Alerj não integrará a linha sucessória do governo, garantindo a permanência de Couto no cargo até a eleição prevista para o fim do ano.
Apesar disso, o governador interino enfrenta dificuldades para atrair nomes de confiança para o primeiro escalão, especialmente entre integrantes do meio jurídico, que demonstram cautela diante da instabilidade política.
OUTRAS MUDANCAS NA ADMINISTRAÇÃO
A reestruturação também atingiu áreas estratégicas. No Rioprevidência, o presidente interino Nicholas Cardoso foi exonerado em meio a investigações, sendo substituído pelo procurador Felipe Derbli.
Na segurança pública, houve mudanças no Gabinete de Segurança Institucional e no Instituto de Segurança Pública. Além disso, diversos delegados e policiais ligados a programas estaduais foram afastados.
Outros órgãos relevantes também passaram por alterações, como a Controladoria-Geral do Estado e a representação do governo em Brasília, indicando um processo amplo de reformulação administrativa conduzido por Couto.
Foto: Vera Araújo/Agência O Globo
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